Infravermelho virou palavra de ordem em produto de recuperação. Aparece em patch, em tecido, em faixa de braço e, agora, em calçado. Antes de tratar a expressão como sinônimo de resultado, vale separar três coisas que costumam andar juntas na propaganda e separadas na pesquisa: o que é infravermelho, o que ele faz em tecidos vivos e o que isso tem a ver com o seu treino.
O que é, de fato, infravermelho distante
Infravermelho distante é radiação eletromagnética de baixa energia, na faixa que o próprio corpo humano também emite. Não é laser, não é calor de forno e não atravessa o corpo. A interação acontece na superfície: pele, tecido subcutâneo, vasos próximos.
É por isso que a maior parte dos estudos sérios nessa área mede coisas pequenas e locais — perfusão, microcirculação, oxigenação — em vez de desempenho ou recuperação muscular. Quando alguém salta desse nível para "acelera a recuperação", o salto não está sustentado pelos dados.
O que os estudos medem quando o assunto é microcirculação
van Kraaij e cols. (2024) conduziram um ensaio clínico de fase 1, randomizado e aberto, para avaliar o efeito de um patch emissor de infravermelho distante sobre a perfusão cutânea local, a microcirculação e a oxigenação. É o tipo de desenho que mede o que acontece na pele e nos vasos superficiais — não em músculo em recuperação.
Li e cols. (2017) avaliaram eficácia e segurança da radiação infravermelha distante no tratamento de linfedema, com avaliação clínica e análise laboratorial. Um contexto clínico específico, em que há acúmulo de líquido e alteração de tecido — bem distante de um pós-treino de corrida.
Atsuta e cols. (2026) mediram respostas microcirculatórias de curto prazo a estímulo físico não invasivo, em um estudo voltado à pesquisa ortodôntica. Ou seja: a microcirculação local responde a estímulos, sim, mas o tecido medido ali foi a gengiva, não o quadríceps.
Um resultado negativo que merece atenção
Vale ler também o que não funcionou. Chamoux e cols. (2025) fizeram um estudo randomizado cruzado, simples-cego, com praticantes de esporte recreacional do sexo masculino, em repouso. Uma peça de braço com biocerâmica não aumentou o diâmetro da artéria braquial nem o fluxo sanguíneo, e não alterou a microcirculação do bíceps.
Isso não derruba toda a área, mas estabelece um limite importante: tecido funcional não é sinônimo de efeito fisiológico medível. Parte das promessas simplesmente não se confirma quando testada.
Há ainda evidência concentrada em contextos muito particulares. Regev-Sadeh e cols. (2026), em revisão sistemática com metanálise, avaliaram dispositivos baseados em energia sobre dor e cicatrização de episiotomia. É um exemplo de que "dispositivo baseado em energia" é uma categoria ampla, e que a evidência costuma existir para um cenário específico — não para todos.
Tecidos com semicondutores: campo em construção
Lamparelli e cols. (2026) revisaram os efeitos anti-inflamatórios e de cicatrização de tecidos com semicondutores embutidos. O próprio título do trabalho fala em "evidência atual e perspectivas futuras" — nomenclatura educada para dizer que a área é promissora e ainda não fechada.
O que dá para afirmar hoje, sem exagero
- Existe evidência de que infravermelho distante pode influenciar perfusão cutânea, microcirculação e oxigenação local, em desenhos experimentais específicos (van Kraaij e cols., 2024).
- Existe evidência clínica em um contexto de linfedema (Li e cols., 2017), que não se transfere automaticamente para recuperação esportiva.
- Existe pelo menos um resultado negativo em tecido funcional de vestuário (Chamoux e cols., 2025), o que recomenda cautela com generalizações.
- Não há, entre os estudos disponíveis, nenhum que tenha medido recuperação muscular pós-exercício com uso de calçado.
O último ponto é o mais importante. Ele não desqualifica o produto. Ele descreve o estado da arte.
Onde o Fly Recovery entra nessa conversa
A linha Recovery da Fiber existe justamente para ocupar o espaço entre treino e descanso. O Tênis Fly Recovery e o Tênis Fly Recovery X são construídos sobre a tecnologia Infrared da marca, dentro de uma proposta de calçado barefoot: formato que acompanha o pé, uso confortável e pensado para os momentos em que você não está buscando performance, e sim deixando o corpo trabalhar.
O que a Fiber não deve fazer — e este texto não vai fazer — é dizer que calçar o Fly equivale a um tratamento ou a um ganho comprovado de recuperação. O que existe é uma hipótese de trabalho: a de que estimular superficialmente a circulação local faz parte do cuidado com o pé e com a região ao redor. E uma hipótese, por definição, ainda está sendo testada.
Se você compra o Fly esperando efeito clínico comprovado, a evidência atual não sustenta essa promessa. Se você compra esperando um calçado confortável, de construção coerente com o pé, para usar depois do treino, aí a conversa é outra.
Como usar isso na prática
- Trate o calçado como parte da rotina de pós-treino, não como substituto de qualquer outra estratégia.
- Desconfie de número fechado em percentual de recuperação. Nenhum dos estudos aqui citados mediu isso.
- Leia a alegação e pergunte qual estudo a sustenta. Quando a resposta é vaga, a alegação também é.
- Use por sensação e conforto, que são critérios legítimos e verificáveis por você mesmo.
Referências
- van Kraaij SJW, Hamblin MR, Pickering G et al. (2024). A Phase 1 randomized, open-label clinical trial to evaluate the effect of a far-infrared emitting patch on local skin perfusion, microcirculation and oxygenation. Experimental Dermatology. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37950549/
- Li K, Zhang Z, Liu NF et al. (2017). Efficacy and safety of far infrared radiation in lymphedema treatment: clinical evaluation and laboratory analysis. Lasers in Medical Science. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28127644/
- Atsuta S, Koizumi S, Takahashi SS et al. (2026). Short-Term Gingival Microcirculatory Responses to Non-Invasive Physical Stimulation: Implications for Accelerated Orthodontic Research. Dentistry Journal. https://doi.org/10.3390/dj14060353
- Chamoux M, Rakobowchuk M, Gaston AF et al. (2025). Bioceramic arm garment does not increase diameter of brachial artery and blood flow — Compliance and biceps microcirculation in male recreational sports practitioners at rest: A single blinded randomized cross-over study. Journal of Sport and Health Science. https://doi.org/10.1016/j.jshs.2025.101117
- Regev-Sadeh S, Nahshon C, Cohen N et al. (2026). Efficacy of energy-based devices on episiotomy pain and healing: A systematic review and meta-analysis. International Journal of Gynaecology and Obstetrics. https://doi.org/10.1002/ijgo.70764
- Lamparelli EP, Batti S, Orlanno C et al. (2026). Anti-inflammatory and tissue-healing effects of semiconductor-embedded fabrics: current evidence and future perspectives. British Medical Bulletin. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42543009/
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