Quem treina costuma pensar em força de perna, de quadril, de core. O pé raramente entra na lista. Ele é tratado como estrutura passiva, um apoio que o tênis precisa corrigir, amortecer ou estabilizar. Só que o pé tem musculatura própria, e musculatura responde a carga — ou deixa de responder quando ela desaparece.
A questão deste texto não é qual tênis é melhor. É o que acontece com o pé quando o calçado para de fazer o trabalho que era dele.
Dois grupos de músculos, um mesmo princípio
O pé tem músculos intrínsecos, que nascem e terminam dentro do pé, e extrínsecos, que vêm da perna e alcançam os dedos. Os intrínsecos participam do controle fino do arco, da rigidez do mediopé e da resposta ao terreno. Os extrínsecos contribuem para a propulsão e para o posicionamento do pé na fase de apoio.
Como qualquer outro tecido muscular, eles se adaptam ao que são solicitados a fazer. Se a tarefa é sempre transferida para uma estrutura externa — placa, entressola alta, controle de movimento —, o estímulo interno cai.
Quando o calçado assume a função
Henderson, Bruening e Arch (2026) testaram órteses deformáveis e observaram que elas deslocam as funções dos conjuntos articulares do pé e do tornozelo durante a caminhada. O achado importa por um motivo simples: a divisão de trabalho dentro do pé não é fixa. Ela muda conforme a interface entre pé e chão muda.
Se uma órtese desloca função, um calçado que absorve e direciona movimento também desloca. Não se trata de dizer que isso é bom ou ruim por si — mas de reconhecer que é uma troca, e que a troca define qual tecido faz o quê.
O que os estudos medem quando o pé trabalha mais
Ridge e colaboradores (2019) avaliaram pessoas caminhando com calçado minimalista e concluíram que essa caminhada é eficaz para fortalecer a musculatura do pé. O que foi medido: força e características dos músculos do pé, antes e depois.
Chen e colaboradores (2016) fizeram algo complementar. Acompanharam um período de treino com calçado minimalista e mediram o volume dos músculos intrínsecos e extrínsecos do pé. O desfecho avaliado foi exatamente essa variável estrutural — volume muscular — em resposta ao estímulo de treino.
Repare no tipo de desfecho. Não é "pisada melhorou" nem "dor sumiu". É músculo: força e volume. É a variável que o treinamento de força persegue há décadas, só que aplicada a uma região que costuma ficar fora do planejamento.
O quadro maior: revisões sistemáticas
Peters-Dickie e colaboradores (2025) reuniram, em revisão sistemática com meta-análise, estudos sobre exercícios de foot core e calçado minimalista, analisando efeitos no tamanho dos músculos do pé, na força e na biomecânica. Rodríguez-Longobardo e colaboradores (2025) fizeram uma revisão sistemática com populações atléticas, olhando treino orientado a força feito descalço ou com calçado minimalista e seus efeitos na estrutura e na função do pé.
Duas revisões, propostas parecidas, publicadas em periódicos revisados por pares. O que elas sustentam em conjunto é modesto e específico: há evidência de que o pé responde a esse tipo de estímulo. Não é promessa de desempenho, nem de prevenção de lesão.
O que não se pode concluir
Aljohani (2026) descreve a epidemiologia das lesões musculoesqueléticas relacionadas à corrida e discute determinantes biomecânicos entre os fatores envolvidos. Lesão em corrida é frequente e tem origem multifatorial.
Nenhum estudo desta lista comparou incidência de lesão entre pessoas que usam calçado minimalista e pessoas que usam calçado convencional. A conclusão honesta é: com base nesses dados, não dá para afirmar que um tipo de calçado previne ou causa lesão. O que existe é mudança mensurável de força e de volume muscular do pé.
Como aplicar isso sem estragar o treino
Se o pé responde a estímulo como qualquer outro tecido, a lógica de aplicação é a mesma que você usaria para qualquer grupo muscular: carga progressiva e recuperação.
- Progressão gradual. Trocar de calçado de uma vez é uma mudança grande de carga. Trate como trataria um salto de volume no treino.
- Alternância. Não é obrigatório aposentar todo calçado. Rodar entre modelos distribui o estímulo ao longo da semana.
- Estímulo fora da corrida. Caminhadas e aquecimentos com o pé mais livre somam volume sem exigir a intensidade da sessão principal.
- Força do pé como bloco separado. Exercícios específicos entram no planejamento, não como substituto do treino.
Na prática, o calçado é a variável que você controla com mais facilidade. É aí que entra um modelo de sola plana, fina e flexível — construção que aproxima o pé do chão em vez de resolver o movimento por ele. O Tênis Barefoot Free segue essa linha, pensado para uso amplo, incluindo caminhada e deslocamentos. O Tênis Barefoot Ultra parte da mesma base para o contexto de treino de força, em que a estabilidade na execução pesa. Nenhum dos dois fortalece o pé por conta própria: eles apenas não retiram do pé a tarefa. Quem faz o trabalho é o treino.
Resumindo
Músculo responde a carga. Se o calçado carrega no lugar do pé, o pé se adapta à ausência. Se o calçado devolve parte dessa tarefa, o pé tem com o que se adaptar — de forma gradual, mensurável e sem milagre.
Referências
- HENDERSON, A.; BRUENING, D.; ARCH, E. et al. (2026). Deformable foot orthoses shift the functional roles of foot and ankle joints during walking gait. Scientific Reports. https://doi.org/10.1038/s41598-026-54750-3
- RIDGE, S. T.; OLSEN, M. T.; BRUENING, D. A. et al. (2019). Walking in Minimalist Shoes Is Effective for Strengthening Foot Muscles. Medicine and Science in Sports and Exercise. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30113521/
- CHEN, T. L.; SZE, L. K.; DAVIS, I. S. et al. (2016). Effects of training in minimalist shoes on the intrinsic and extrinsic foot muscle volume. Clinical Biomechanics (Bristol, Avon). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27195735/
- PETERS-DICKIE, J. L.; DETREMBLEUR, C.; GUALLAR-BOULOC, M. et al. (2025). The effects of foot core exercises and minimalist footwear on foot muscle sizes, foot strength, and biomechanics: A systematic review and meta-analysis. Clinical Biomechanics (Bristol, Avon). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39709752/
- RODRÍGUEZ-LONGOBARDO, C.; GÓMEZ-RUANO, M. Á.; CANOSA-CARRO, L. et al. (2025). Effects of Barefoot and Minimalist Footwear Strength-Oriented Training on Foot Structure and Function in Athletic Populations: A Systematic Review. Journal of Clinical Medicine. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41227025/
- ALJOHANI, M. M. A. (2026). Running-Related Musculoskeletal Injuries in Saudi Arabia: Epidemiology, Biomechanical Determinants, and Global Comparative Insights. Healthcare (Basel, Switzerland). https://doi.org/10.3390/healthcare14172776
Leia também
- Tênis Barefoot Ultra — Você sabia que existem calçados específicos para treino de força? Eles são desenvolvidos para proporcionar o suporte ideal na execução corre
- Tênis Barefoot Free — Fortaleça seus pés. Transforme todo o seu corpo. Assim como os músculos, os pés também precisam ser exercitados. Conectá-los ao chão é a
Imagem: Gustavo Fring / pexels — Pexels License (uso comercial livre, sem atribuição obrigatória)


































