Antes da planilha, a pergunta
A ideia de ajustar o treino conforme a fase do ciclo menstrual é intuitiva: os hormônios mudam ao longo do mês, então o desempenho deveria mudar também, e o treino deveria acompanhar. O ponto que costuma faltar na conversa é que intuição não é evidência. A pergunta que a literatura tenta responder é mais estreita e mais chata: existe diferença mensurável de desempenho entre fases, em mulheres com ciclo eumenorreico, em condições controladas?
O que as meta-análises encontraram
McNulty et al. (2020) reuniram, em revisão sistemática com meta-análise, estudos que compararam desempenho físico entre fases do ciclo em mulheres eumenorreicas. Os autores relatam desempenho levemente menor na fase folicular inicial — a janela da menstruação — em comparação com as demais fases. A magnitude é pequena e a heterogeneidade entre estudos é alta, o que significa que a média do grupo descreve mal qualquer atleta individual.
Schlie et al. (2025) fizeram o caminho inverso: em vez de somar tudo, filtraram apenas estudos com padrão metodológico alto. A conclusão é ainda mais contida. Alguns desfechos fisiológicos variam entre fases, mas essa variação não se traduz de forma consistente em desempenho. Quando se exige rigor do estudo, o efeito encolhe.
Britton e Duncan (2026) analisaram o efeito das mudanças hormonais do ciclo sobre o desempenho de atletas de elite e, além da meta-análise, propuseram um protocolo padronizado para estudos futuros. O detalhe é revelador: quando os próprios pesquisadores da área publicam uma proposta de padronização, é porque a falta de padronização está atrapalhando as comparações.
Por que os estudos divergem tanto
- Definições diferentes de fase: contagem de dias do calendário em alguns casos, dosagem hormonal em outros.
- Confirmação de ovulação ausente em parte dos estudos, o que embaralha a classificação.
- Uso de contraceptivo hormonal, que altera o próprio eixo que se quer estudar, nem sempre reportado.
- Testes diferentes: força máxima, potência, endurance e percepção de esforço não respondem igual.
- Amostras pequenas e medições em momento do dia variável.
Somando tudo isso, fica difícil dizer se a diferença encontrada é do ciclo ou do desenho do estudo.
Onde há mais sinal: sintomas, não fases
Mendez-Dominguez et al. (2026) revisaram intervenções ligadas à saúde menstrual e a sintomas associados ao ciclo em atletas, com implicações para recuperação e desempenho. Essa é a leitura mais útil na prática: o que costuma atrapalhar o treino não é a fase em si, mas o que vem junto — dor, cólica, sangramento intenso, sono ruim. Sintoma existe ou não existe em você, hoje. Fase é categoria; sintoma é dado.
Nutrição: a parte com base mais concreta
Larrosa et al. (2025) reuniram, em revisão sistemática, estratégias nutricionais voltadas à saúde, ao desempenho e à recuperação de atletas e mulheres fisicamente ativas. É um campo mais aplicável justamente porque não depende de adivinhar a fase do ciclo. Já Nolte et al. (2026) acompanharam quatro meses de suplementação com DHA e proteína de soro de leite em jogadoras semiprofissionais, medindo status de ômega-3, desfechos hematológicos e desempenho físico. O desenho foi prospectivo, mas não randomizado — o próprio estudo não permite afirmar relação de causa e efeito.
O que dá para aplicar sem inventar
- Registre antes de presumir. Carga, sono, dor e percepção de esforço ao longo de dois ou três ciclos dizem mais sobre você do que qualquer média de grupo.
- Não reduza carga por antecipação. Sem sintoma presente, não há base na literatura revisada aqui para programar alívio só porque o calendário chegou em determinado dia.
- Maneje o sintoma quando ele aparece. A revisão de Mendez-Dominguez et al. (2026) é o ponto de partida para isso.
- Resolva o básico nutricional primeiro, seguindo o que a revisão de Larrosa et al. (2025) organiza, antes de qualquer ajuste fino.
- Aceite a variabilidade individual. Efeito médio pequeno e heterogêneo não autoriza regra geral.
O que a evidência não sustenta
Não sustenta afirmar que mulheres rendem menos durante a menstruação como regra. Não sustenta uma planilha dividida por fase hormonal como protocolo estabelecido, porque esse protocolo ainda está sendo construído. E não sustenta prometer ganho de desempenho a partir de um suplemento isolado. O que se sustenta é observação individual, registro e ajuste conforme sintoma.
Conforto entra como continuidade, não como desempenho
Um ponto prático: constância de treino vale mais que ajuste teórico de fase. Roupas que incomodam, esquentam demais ou restringem movimento criam atrito justamente nos dias em que manter a rotina já é mais difícil. A Legging Be Motion LYN foi desenvolvida com tecido tecnológico de alta performance, que oferece conforto térmico, toque suave e liberdade de movimento; o Top Crossback Nyx segue a mesma linha, com modelagem mais curta e recortes estratégicos. Nenhuma das duas altera hormônio, desempenho ou recuperação. A função delas é reduzir desconforto para que o treino planejado aconteça.
Referências
- McNulty KL, Elliott-Sale KJ, Dolan E et al. (2020). The Effects of Menstrual Cycle Phase on Exercise Performance in Eumenorrheic Women: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32661839/
- Schlie J, Krassowski V, Schmidt A et al. (2025). Effects of menstrual cycle phases on athletic performance and related physiological outcomes: a systematic review of studies using high methodological standards. Journal of Applied Physiology. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40695607/
- Britton II, Duncan WC et al. (2026). The effects of hormone changes over the menstrual cycle on elite athlete performance: meta-analysis and suggested standardised protocol. Reproduction & Fertility. https://doi.org/10.1530/raf-25-0131
- Mendez-Dominguez N, Estrella-Castillo D, Villarreal-Jimenez E et al. (2026). Interventions Related to Menstrual Health and Menstrual-Cycle-Associated Symptoms in Female Athletes: Implications for Recovery and Athletic Performance. Sports. https://doi.org/10.3390/sports14060236
- Larrosa M, Gil-Izquierdo A, González-Rodríguez LG et al. (2025). Nutritional Strategies for Optimizing Health, Sports Performance, and Recovery for Female Athletes and Other Physically Active Women: A Systematic Review. Nutrition Reviews. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38994896/
- Nolte S, Klügel S, Maier C et al. (2026). Four months of DHA and whey protein supplementation in semi-professional female soccer players: a prospective non-randomized controlled study of omega-3 status, hematological outcomes, and physical performance. Frontiers in Nutrition. https://doi.org/10.3389/fnut.2026.1886305
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