Sustentabilidade no esporte é problema de engenharia
Discutir sustentabilidade no esporte é fácil no discurso e difícil na execução. A literatura recente sobre o tema abandonou a retórica motivacional e passou a tratar o assunto como problema técnico: o que se mede, quem responde, como se especifica e o que sobra para o território onde o esporte acontece. Este texto reúne o que alguns desses estudos mostram e o que isso significa para quem treina.
Medir antes de prometer
Wilby et al. (2023), em artigo publicado nos Annals of the New York Academy of Sciences, revisam os impactos das emissões do esporte sobre o clima e discutem como essas emissões são medidas, como a mitigação pode ser organizada e o que faz diferença na prática. O estudo trata medição e mitigação como etapas dependentes: sem inventário, não há meta; sem meta, não há verificação.
Isso importa porque o setor esportivo é heterogêneo. Uma federação, um clube, uma corrida de rua e uma academia não têm a mesma estrutura de emissões nem os mesmos instrumentos para contabilizá-las. A contribuição do trabalho está menos em apontar culpados e mais em organizar o problema em variáveis que podem ser acompanhadas ao longo do tempo.
Evento esportivo: da intenção à especificação
Desbordes e d'Ettorre (2026), na Frontiers in Sports and Active Living, propõem especificações para a gestão ambientalmente responsável de eventos esportivos. A ideia central é transformar a sustentabilidade em requisito de projeto, e não em declaração de intenções anexada ao final.
Na prática, isso significa definir critérios antes da escolha de fornecedores, do desenho do percurso e da operação do evento. Um evento é um sistema temporário: é montado, opera por poucos dias e é desmontado. Decisões tomadas cedo, quando ainda são baratas, determinam a maior parte do resultado ambiental.
Um campo de pesquisa em expansão — e ainda disperso
Kayhalak et al. (2026), na Frontiers in Research Metrics and Analytics, mapeiam a produção científica sobre sustentabilidade no esporte nas bases Web of Science e Scopus, no cruzamento entre ação climática, objetivos de desenvolvimento sustentável e gestão esportiva. O estudo é bibliométrico: mede volume, distribuição e conexões entre publicações. O campo cresceu, mas aparece fragmentado em clusters que conversam pouco entre si.
Para quem lê de fora, a consequência é prática: existe material suficiente para orientar decisões, mas ele está espalhado entre gestão, saúde pública, turismo e ciências ambientais. Quem busca respostas rápidas encontra pedaços.
Futebol, combustíveis fósseis e saúde pública
Kogevinas e Pearce (2026), na Environmental Epidemiology, discutem a relação entre futebol, combustíveis fósseis e saúde pública no contexto da crise climática. O artigo desloca o debate do carbono para o campo da saúde coletiva, tratando o esporte como espaço onde promoção de saúde e dependência de combustíveis fósseis coexistem.
É um recorte diferente dos inventários de emissão. Aqui a pergunta não é apenas quanto o esporte emite, mas que tipos de associação e dependência ele sustenta — e o que isso representa para a saúde das populações expostas.
Turismo esportivo: destino, comunidade e hotelaria
Qodirov et al. (2026), também na Frontiers in Sports and Active Living, propõem princípios para o desenvolvimento do turismo esportivo e de eventos, com um quadro que busca aumentar o valor do destino considerando a sustentabilidade social. O foco não está só no visitante, mas em quem mora onde o evento acontece.
Toyirova e Juraev (2026) tratam da gestão hoteleira no turismo esportivo e do equilíbrio entre desempenho econômico e responsabilidade social. É o elo que costuma ficar fora das planilhas de emissão: ocupação, emprego local, sazonalidade e pressão sobre infraestrutura urbana.
Lidos juntos, os dois trabalhos descrevem o mesmo problema por dois ângulos. Um evento pode ser ambientalmente correto e socialmente problemático se ignorar o território que o recebe — e o inverso também é possível.
O que isso significa para quem treina
Nenhum dos estudos acima mede o efeito de um par de tênis específico sobre o clima. Isso precisa ficar claro, porque a distância entre o que a pesquisa mostra e o que a comunicação de marcas costuma afirmar é grande.
O que os trabalhos oferecem é um critério. Wilby et al. (2023) mostram que medir e mitigar são etapas de um mesmo processo; Desbordes e d'Ettorre (2026) mostram que responsabilidade se define na especificação, antes da execução. Traduzido para quem treina, isso aponta para decisões verificáveis:
- usar o equipamento até o fim da vida útil em vez de trocá-lo por novidade;
- preferir percursos e provas que não dependam de deslocamento longo;
- cobrar de organizadores informação concreta em vez de selo genérico;
- tratar o calendário de treinos e provas como parte do cálculo, não como dado fixo.
São escolhas pequenas, e seria desonesto apresentá-las como solução. O sistema emite em outra escala. Mas o mesmo raciocínio das seções anteriores se aplica: o que não é medido não é gerenciado, e o que não é especificado não é cumprido.
A Fiber trabalha com calçados barefoot, meias e acessórios de treino dentro dessa lógica: menos itens, mais duráveis, com função clara. Não é uma alegação ambiental verificada por estudo — é uma escolha de linha de produto coerente com a ideia de reduzir reposição desnecessária. A parte que cabe à marca é executar isso bem; a parte que cabe à pesquisa é continuar medindo.
Referências
- Wilby RL, Orr M, Depledge D et al. (2023). The impacts of sport emissions on climate: Measurement, mitigation, and making a difference. Annals of the New York Academy of Sciences. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36377356
- Desbordes M, d'Ettorre C et al. (2026). Environmental sustainability in sports events: specifications for responsible management. Frontiers in Sports and Active Living. doi.org/10.3389/fspor.2026.1749862
- Kayhalak F, Soyal M, Soyal TS et al. (2026). Sport sustainability research at the intersection of climate action, SDGs, and sport management: a comparative bibliometric mapping of Web of Science and Scopus. Frontiers in Research Metrics and Analytics. doi.org/10.3389/frma.2026.1884197
- Kogevinas M, Pearce N et al. (2026). Football, fossil fuels, and public health in the era of climate crisis. Environmental Epidemiology. doi.org/10.1097/ee9.0000000000000502
- Qodirov AA, Urakova DB, Usmanova AB et al. (2026). Innovative principles for sport and event tourism development: a framework for improving the value of the destination while considering social sustainability. Frontiers in Sports and Active Living. doi.org/10.3389/fspor.2026.1789278
- Toyirova SA, Juraev AT et al. (2026). Strategic hotel management in sport tourism: balancing economic performance and social responsibility. Frontiers in Sports and Active Living. doi.org/10.3389/fspor.2026.1795257
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